Chihiro no Brasil – Isso é que é amor

16 jun

A Chef Japonesa Chihiro Fukushima

Quando morei no Japão conheci uma japonesa que falava tão bem o português que, no primeiro contato, não percebi que era japonesa. Só depois percebi um leve sotaque, mas nada que atrapalhasse. Poderia passar perfeitamente por brasileira. Depois descobri que ela cursara faculdade de língua portuguesa no Japão e morou um ano no Brasil.  Era jovem e bonita. Fiquei impressionado com a história. Para efeito de comparação: morei 5 anos no Japão e não aprendi a língua (Eu sei, é vergonhoso).  Que tipo de amor a um país ou cultura pode suscitar tamanho esforço para aprender tão perfeitamente uma língua? Deve ser uma amor imenso, porque imagino que não deve ser nada fácil aprender o português se nem mesmo nós, os brasileiros, a dominamos bem.  Pensei que nunca mais iria encontrar outra japonesa tão apaixonada pelo Brasil.  Estava enganado.

Reportagem de hoje na “Folha de S. Paulo” narra a história de Chihiro Fukushima, 29, uma chef japonesa que se apaixonou pelo Brasil quando experimentou o feijão. Feijão? Sim. Apaixonou-se pela culinária brasileira. Foi por esse amor que estudou português por três anos. Apenas para vir ao Brasil aprender nossa culinária. Está agora no Brasil fazendo um curso no restaurante Na Cozinha. Tem novas paixões agora. Adora o cozido nordestino, o caldo de mocotó (que deixa a pele dela linda, ela diz), torta de banana, pato no tucupi (o que é isso?) e não vê a hora de experimentar a saborosa buchada de bode.  Ah, e você pode ver pela foto acima que ela é linda.

A reportagem me despertou sentimentos de admiração e inveja. Que tipo de amor é esse que faz uma pessoa aprender uma língua e atravessar o mar para estar mais perto do seu objeto de adoração? Eu quero um dia sentir isso.

Receita de Nikujaga, por Chihiro Fukushima:

Rendimento:2 porções

INGREDIENTES

- 2 batatas
- 1 cenoura
- 1 cebola
- Costelinha (de boi ou de porco, com gordura)
- Cebolinha a gosto
- Shoyu a gosto
- Saquê para cozinha a gosto
- Saquê normal a gosto
- 1 colher de sopa de açúcar
- 200 ml de caldo de peixe

PREPARO

Refogue os legumes e verduras picados em um pouco de óleo. Quando a carne ficar esbranquiçada, acrescente 200 ml de caldo de peixe. Caso você não tenha caldo de peixe, compre a versão em pó, dissolva nessa quantidade de água e despeje no refogado. Cozinhe até que a cenoura e a batata fiquem no ponto desejado. Vá acertando a água conforme a necessidade. Coloque uma colher de sopa de açúcar e regue com saquê para cozinha. Em seguida, adicione a mesma quantidade de saquê normal. Cozinhe um pouco e finalize jogando um pouco de shoyu. Desligue o fogo e sirva

Gênio de Alfred Hitchcock

15 jun

Cena de "Um Corpo que Cai" (Vertigo)

CINESESC, muitos anos atrás, 15 ou 20, não me lembro. Assistia pela primeira vez “Um corpo que cai”, de Alfred Hitchcock. Terminada a sessão, eu não acreditava no que tinha acabado de assistir. Estava ainda emocionado pela beleza insuportável do filme.  Não tive dúvidas: fiquei na sala para assistir de novo. E no fim da segunda sessão continuei tão deslumbrado quanto da primeira vez. E desde aquela época não mudei de opinião. É um dos filmes mais lindos que já assisti. Revi o filme várias vezes e uma das caracteristicas do filme é que ele pode ser visto várias vezes e é sempre interessante, emocionante. Não enjoa. A elegância narrativa, os enquadramentos geniais, o carisma de James Stewart , a música deslumbrante de Bernard Herrmann, a beleza de Kim Novak, as paisagens de São Francisco, tudo no filme é maravilhoso. Uma das histórias de amor mais lindas do cinema. Se você ainda não assistiu, não perca tempo. Corra até um locadora e alugue o filme. E se você não confia na minha opinião, saiba que o filme sempre entra nessas listas de melhores filmes da história promovidos pelos críticos de cinema. Uma obra-prima.

Mas porque estou revirando minhas memórias? O Centro Cultural Banco do Brasil irá exibir, a partir do dia 15 de junho, 59 filmes de Hitchcock, a maioria em película. Hitchcock em tela grande. Poucas coisas no cinema podem ser melhor que isso. Acho “Um corpo que cai” o melhor filme dele, mas poderia citar ainda “Janela Indiscreta”, “Os Pássaros”, “Psicose”, “Frenesi”, “O Homem errado”…Poucos diretores têm a quantidade de obras-primas na carreira como Hitchcock. E talvez seja o cineasta  mais copiado por outros diretores no mundo.  Ninguém consegue ver no cinema alguém tomando banho num chuveiro sem lembrar de “Psicose”.  Ou alguém em uma janela com um binóculo sem pensar em “Janela Indiscreta”. E, ainda, uma pessoa subindo escadas  sem lembrar  de “Um corpo que cai”.  Dá para escrever um post para cada um desses filmes, mas nada do que eu escrevesse substituiria a experiência de assistir Hitchcock no cinema.

Se você estiver em São Paulo nas próximas semanas, não deixe de ver a mostra. Mas se você puder ver apenas um filme, um único filme, assista “Um Corpo que Cai”.  Assim como eu, você vai se apaixonar.  Para sempre.

Para uma menina com amor (12 de junho)

12 jun

Porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de vida, com tudo que você gosta, os doces, os lugares, os livros e discos que ama, as viagens que irá fazer sempre porque você é uma menina que é só amor. E porque você é uma menina que é uma flor, e tem esse jeito de falar baixinho que eu adoro e diz coisas que ninguém entende, e conta teus sonhos mais lindos e absurdos, mas que eu tanto amo ouvir porque você é uma menina como uma flor.

Porque você é assim como uma flor, e sempre cozinha para mim do teu jeito, os yakissobas, as tortas e bolos, sushi – tudo perfeito! –  que nem sempre são do meu gosto, mas que eu gosto mesmo assim. E porque você nem sempre é uma menina como uma flor, e a gente briga e fico triste, depois não aguento mais de dor, quero te dar a lua e as estrelas, para minha menina com amor.

E porque você é tão inteligente, sabe das coisas que eu gostaria de saber sem estudar, só de coração, que nem tem comparação minha razão contra sua intuição…E eu gostaria tanto, menina com uma flor, ter algum talento para escrever algo bonito e elegante para você, mas nada que eu escrevesse seria tão bonito e elegante quanto uma menina como uma flor, e só sei repetir e repetir que você é  tão linda como uma flor.

E porque você é tão boa comigo, flor de outono, e tão engraçada, faz tuas gafes que só acrescentam mais charme a você e me faz rir, porque você é assim e eu gostaria de fazê-la rir também, mas não consigo, porque sou sem graça, não tenho tua graça, graça de uma menina como um flor.

E, além de ser essa menina como uma flor, é minha grande amiga, minha melhor amiga, que me incentivou mesmo quando eu fui o pior entre os piores, quando fui o último e estava no chão, você me deu a mão e me levantou com muito amor, sendo minha amiga como uma flor…

E porque você é uma menina como uma flor, quero ser sempre teu amigo, lhe dar abrigo se um dia precisar, e o que te prometo é que o meu sucesso será o teu sucesso, aconteça o que acontecer, e é porque te adoro e porque não quero que esqueça é que escrevi este texto para você, para minha menina com uma flor…

(Texto que escrevi para uma amiga há muitos anos e que modifiquei algumas partes para o dia dos namorados)

Lady Gaga, Olivia Palermo e a influência sobre as “It Girls”. Ou: é fácil escrever difícil

6 jun

Olivia Palermo, blogueira e a suprema "It Girl"

Tem gente que gosta de escrever difícil. Para parecer que é intelectual ou muito inteligente. E tem gente que cai no truque. “Nossa, ele é muito inteligente, não?”. Como tem gente que adora falar umas coisinhas em inglês para parecer que é “cool” (legal, descolado).  Acontece em todas as áreas. Mas é possível falar complicado e não dizer absolutamente nada.  Ou dizer bastante coisa que não significa nada.  Como tento demonstrar abaixo, escrevendo sobre um assunto de suma importância: Lady Gaga, Olivia Palermo e suas seguidoras, as “It girls”.  Vamos lá:

VAMOS DEMONSTRAR, de modo inequívoco, um certa tendência que se abate sobre determinada população influenciável de jovens, de modo velado, sub-reptício, que, no entanto, se mostra agudamente exposto no seio do palco midiático global enquanto show perfomático, hedonista e exibicionista, embora hipocritamente escondido dos anseios e desejos da população pós e pré indústria cultural e seus agentes. Como o leitor perceberá, de FORMA CLARA E DEFINITIVA, depois da leitura deste texto, que se pretende longe da retórica estéril e inexpressiva dos conservadores dos usos e costumes que usam destes mesmos usos e costumes para manter sua dominação sobre aquela população pré-cultura de forma análoga, mas não dominante das formas e usos, de sociedades uniformes.  MAS COMO?, perguntará o leitor, percebendo a contradição entre a intenção e os desejos dos autor. Tomemos por exemplo, de modo apenas ilustrativo, a atuação de certa artista perfomática e dionisíaca, Lady Gaga. Todos sabem, e isso é notório e de conhecimento geral, que os signos e estereótipos que cercam, de modo contraditório mas evidente, as chamadas “It Girls” e sua ícone, a It Girl-mor Olivia Palermo, são, ao seu modo, a constatação evidente que anula o conceito fashion de modo causal entre o cotidiano e os chamados ‘fashionistas” – conceito que deveremos investigar em outra ocasião – para então, entre o pós e pré-modernos no mundo de Lady Gaga e seus acólitos, desvendar seus segredos. Para esclarecer este ponto, citaremos uma frase da acadêmica Alessandra Inagaki (Becky Bloom University): “hal hunaa ayy shakhS yatakallam al-`arabiyya”diz as doutas e sábias palavras da renomada professora, que abandonou os acurados estudos do Corão e Islã para nos iluminar nesse ponto, pois fica evidente o significado depois de seu esclarecimento. Com esse ponto devidamente elucidado, devemos partir para solucionar outro paradoxo que permeia todo o conceito fashion: Com que roupa eu vou?  Para nos auxiliar nesse particular, citaremos uma breve passagem de “Dependência e Desenvolvimento na América Latina, do professor Fernando Henrique Cardoso, com sua verve simples e direta: “Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empiricas em função do modo de conexão entre componentes estruturais internos e externos”.  É óbvio, nem precisamos dizer mais nada. Em resumo, poderiamos recorrer ainda ao filósofo e erudito enólogo Tim Maia com sua sábias palavras: “Tudo é tudo e nada é nada”. Isto é: vai com a roupa que quiser!

Você já assistiu “Cidadão Kane”? – O mistério de Rosebud

31 mai

Jogo de luzes de "Cidadão Kane"

Não existe filme mais admirado,  discutido e amado pelos cinéfilos e críticos de cinema do que “Cidadão Kane”. É simplesmente considerado o melhor filme de todos os tempos, o mais importante e influente da história do cinema. “Fiquei a noite inteira sem dormir no dia que vi  pela primeira vez”, disse Martin Scorsese. Steven Spielberg arrematou um objeto do filme por 100 mil dólares num leilão em 1983.  ”O cinema moderno se divide em antes e depois de Cidadão Kane”, definiu Moniz Vianna, o maior crítico de cinema do Brasil. Pois, neste mês de maio, o filme de Orson Welles fez 70 anos. Foi lançado em primeiro de maio de 1941. Veio desde então influenciando todos jovens cineastas do mundo.

E o que o filme tinha de tão especial? Tudo. Num único filme Orson Welles, que tinha apenas 25 anos, mudou a maneira de posicionar a câmera, colocando-a no teto, no chão, movimentando-a para cima, para baixo, em movimentos laterais, atravessando fechaduras e janelas;  revolucionou a estrutura narrativa fazendo o filme não seguir uma sequência cronológica, o filme vai e volta no tempo e começa com a morte do protagonista, algo inovador para época; introduziu o uso de efeitos de som como elemento narrativo; criou efeitos especiais novos como a profundidade do campo, onde podemos ver com a mesma nitidez a primeiro e o segundo plano; trouxe angulações de câmera ousadas, nunca antes vistas e jamais a iluminação claro/escuro foi tão bonita.  O filme é uma festa de inovações. Além de tudo, Welles atuou como ator principal.  Os jovens estudantes de cinema se esbaldam com a profusão de idéias e criatividade que o filme proporciona. Muitos assistem ao filme 30 ou 40 vezes.

O filme começa com a morte do protagonista, o magnata Charles Foster Kane. Antes de morrer pronuncia a palavra “Rosebud”. Segue-se então uma investigação para desvendar o mistério: o que significa “Rosebud”? São entrevistados os amigos, parentes, mulher e todos que pudessem contribuir para a investigação. Com os depoimentos dos entrevistados a vida de Kane vai sendo montada como num enorme quebra-cabeça. Mas narrativa traz depoimentos contraditórios, a investigação traz mais mistério do que elucida a vida de Kane, como se Orson Welles quisesse nos dizer que a vida de toda pessoa é um segredo  - um labirinto de espelhos.

Um dos mistérios do filme é que Orson Welles nunca havia dirigido nada antes de “Cidadão Kane”. Também não era do “ramo”. Foi seu primeiro filme e não tinha nenhuma experiência no cinema. Já era famoso por seu trabalho como ator e, principalmente, pela radionovelização que fizera de “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, que aterrorizou os Estados Unidos porque os ouvintes pensaram que realmente seu país estava sendo invadido por extraterrestres. Se não tivesse dirigido “Cidadão Kane”, mesmo assim Orson Welles teria seu lugar garantido na história. Um gênio.

E o que era  “Rosebud”? Assista ao filme.  A cena final, onde se descobre o que é, mas não o que significa “Rosebud”, foi homenageada por Steven Spielberg no final de “Caçadores da Arca Perdida”, numa cena tão genial quanto em “Kane”. Em “Kane”, logo após essa cena, a câmera vai para fora e focaliza uma cerca e uma placa com os dizeres: “No tresspassing” (Não ultrapasse/ Não vá além). É a maneira de Orson Welles nos dizer que o mistério de Rosebud é indecifrável e vai continuar encantando novos amantes do cinema para sempre.

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